Tinha respostas pra tudo, mas nem sempre queria dar, e se zangava facilmente nos chamando de “espicula”. Depois de muito tempo, com muita gramática estudada fui entender o significado dessa palavra. Meu avô era um sujeito pobre, rude, lapidado pela vida difícil, pela roça e confins do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O que aprendemos com ele, jamais encontraremos em qualquer enciclopédia, por mais bem elaborada que seja. Silenciosamente seu Ramiro nos ensinava uma das mais importantes lições humanas: abrir a boca somente quando necessário, e se tiver muita certeza da sabedoria contida nas palavras.
Ainda o vejo no terreno baldio ao lado da sua humilde casa, “sapecando” uns galhos grandes de umas folhas com ponta meio arredondada. Ficava horas naquilo, e com o passar do tempo tínhamos que descobrir sozinhos o que era: erva mate, cultivada em alguns pés em seu quintal, muitos à janela do quarto. No pilão, preparava com muito gosto a iguaria pra manter o vício do tereré e do mate, com água aquecida no fogão à lenha que ele mesmo construía no canto da cozinha, com tijolo e barro, queimado com cimento, comprado no armazém lá na “cidade”.
Tinha umas manias engraçadas e nunca mais por nós esquecidas. Dia de chuva ele encarava como uma bênção e agradecia muito intimamente com um sonoro “Chuva Pedro!”, quando ouvia um trovão daqueles ensurdecedores. Todos nós à sua volta tínhamos e conservamos um apelido muito bem escolhido e adotado por ele. Na família tinha Casca (abreviação de Cascavel), uma tia muito brava, Bugre, Baitaca, Vorá, Jateí, Tatinha, Buguinho e a Jacutinga, mais precisamente eu. Ainda não descobri a verdadeira razão desse apelido, se é associado à ave magrela com esse nome, se é só porque combina com meu nome mesmo, mas sinto tristeza em lembrar do jeito que ele me chamava e hoje não ouço mais.
Escreveria um livro, se pudesse, com tantas lembranças boas desse velho amigo que Deus permitiu nossa convivência. Quando lembramos dele sempre ficamos felizes, sua partida não foi triste, pois sua vida foi plena entre nós, ele deu o que ele tinha para ver-nos felizes e nossas lembranças são provas disso. Talvez ele esteja hoje conversando com o íntimo amigo São Pedro das tardes de chuva. Talvez esteja olhando pra gente agora zangado pra nos corrigir de algum mal feito, ou porque eu ou a Lucimar cortamos o cabelo sem pedir sua permissão. Nós ficamos aqui, na certeza de que fomos felizes em sua presença. Saudades!!!